Mais uma vez ele bebeu demais. Mais uma vez eu fui à vítima que aguentou seus lamentos, suas lamurias, e, algo que não acontecia há algum tempo, suas perguntas sobre o quão importante ele é na minha vida. E mais diferente ainda, ele falou da morte. Mais uma vez ele me assustou. Algo que eu gostaria de ter respondido pra ele hoje, mas não tive coragem, é que, antes de todos os erros, antes de tudo de pior que eu me

lembro, ele foi meu herói.

Eu gostaria do fundo do meu coração olhar nos olhos dele e dizer o quanto eu o amo, e o quanto eu preciso dele aqui. Do contrário do que ele pensa, não para bancar minhas idiotices, e sim, para me mostrar o caminho certo. E sim para que eu pudesse ouvir o que eu desejo ouvir desde pequena e nunca tive a oportunidade.

‘Eu te amo, filha. Eu sinto orgulho de ter te criado, de ter sido o teu pai. ’

Não tem como explicar o nó que se formou em minha garganta, pois cada dia que passa eu sinto que tenho deixado de lado as palavras que eu venho lutando desde sempre para dizer. Não só para ele, mas sim para todos que eu tenho medo de enfrentar.

Ninguém sabe, mas eu sinto medo. O tempo todo. E cada palavra que eu o escuto dizer após três copos de Whisky me machucam.

E no fim, eu só não quero mais sentir essa culpa.

Lithium - Evanescence

A música parecia fluir como veneno pelas minhas veias, me dando uma euforia que não saberia explicar depois. Era incrível ver como o ambiente quente e abafado não me afetava, só me excitava ainda mais a prosseguir. Eu me mexia no ritmo da música, extravasando a energia extra, sentia que era o que eu precisava. Eu passava as mãos pelo cabelo lentamente, desfazendo os nós que iam se formando durante os movimentos leves, mas imponentes. Os seus pedidos da noite anterior me faziam rir, mas eu havia cedido a ele e agora me encontrava dançando no meio da sala, deixando as memórias se juntarem a minha euforia, dobrando o calor que sentia. Sentei no carpete felpudo perto do sofá, dando uma leve olhada para a fina aliança prateada na mão direita, enquanto imagens percorriam minha mente rapidamente. Jantar. Brincadeiras. Indícios. Aliança. Namoro? Não, um comprometimento fora do comum. Seu apartamento. Quarto. E finalmente os lençóis vermelhos. As suas mãos geladas no meu corpo quente, fazendo com que eu me arrepiasse. Não existia nada mais para mim, a não sei os seus toques que me levavam a loucura, o seu cheiro apimentando se mesclando com o meu... A batida da porta me arrancou dos devaneios, desviando meus olhos da aliança, pousando-os em você, parado na minha frente com aquele sorriso safado que me fazia aceitar os pedidos mais insanos. Levantei e em poucos segundos já estava na sua frente, deixando a insanidade se completar;
A minha dança não seria a mesma coisa sem você. Tudo que mais gosto seria impossível viver sem você, ou de que outra maneira sentiria novamente tudo aquilo que você me proporcionou naqueles lençóis vermelhos? Todo aquele prazer insano que me deixava louca por mais, como um vicio que jamais poderia largar... O vicio pelo errado que me atraia e me segurava e por isso estava aqui. No lugar errado, com o propósito errado e a pessoa certa para coisas erradas!

Crash, crash, crash. O barulho feito pelas folhas caídas daquele outono anormalmente gelado pareciam gritos de protesto. Elas atrapalhavam o caminho de meus pés e minhas malas, preenchidas com uma insegurança pesada. Eram como ancoras que eu insistia em arrastar.

- Oi mãe... eu só quero dizer que, hm, que eu estou bem. Fique bem também, ta bom? Ligo quando puder.

Coloquei o telefone no gancho e as mãos na cabeça. Minha fuga não tinha justificativas, era desnecessária e desmotivada, a realização de um desejo estúpido e, agora eu começava a notar, amargo. Sonhei com uma liberdade que já possuía e era incapaz de notar. Abandonei o carinho, a segurança e a sensatez, mas algo me alertava que o vazio que eles haviam deixado logo seria preenchido por tristeza, amargura e arrependimento, ou qualquer coisa parecida.

Por onde ele iria andar enquanto eu vagasse nas ruas geladas e desconhecidas dessa nova cidade?
Talvez os sorrisos, que antes tinham meu olhos como endereço de entrega, fossem agora doados a outra pessoa. Eu fui embora sem me despedir, ainda que nossas brigas parecessem soletrar um adeus doloroso, não acabei, deixando nosso relacionamento propositalmente mau resolvido. Egoísta, ainda prefiro não imaginar a dor que isso possa estar causando nele neste instante. Sei o quanto dói em mim, e já basta. Sei também que essa era a forma de ter um pedaço seu para sempre, mesmo que este pedaço tenha a forma de uma cicatriz.
Entrando quase em desespero, romantizei por alguns segundos um reencontro em que, depois dessa distância estúpida, haveria ainda mais amor entre nós e também adicionaríamos a tolêrancia a nossa história. Mas logo notei que um reencontro agora só mesmo em alucinações.

Levantei para admirar a vista da janela do velho quarto que havia conseguido e notei que estava tarde demais pra puxar a corda do para-quedas. A queda seria inevitável e marcante, deixando em mim a idéia de que o desejo de aventuras não passa de um disfarce para hipocrisia. Mas era tarde também para recriminações e dramatizações. Se lamentar não mudaria os fatos.
Só me restava aprender a voar.


Vienna - The Fray

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E eu não escrevo melhor...

Quando estou preso no chão Então não me ensine uma lição Pois eu já aprendi Eu não quero o que você quer Eu não sinto o que você sente Veja estou preso numa cidade Mas eu pertenço ao campo Tudo bem E o coração bate em sua gaiola

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