Crash, crash, crash. O barulho feito pelas folhas caídas daquele outono anormalmente gelado pareciam gritos de protesto. Elas atrapalhavam o caminho de meus pés e minhas malas, preenchidas com uma insegurança pesada. Eram como ancoras que eu insistia em arrastar.

- Oi mãe... eu só quero dizer que, hm, que eu estou bem. Fique bem também, ta bom? Ligo quando puder.

Coloquei o telefone no gancho e as mãos na cabeça. Minha fuga não tinha justificativas, era desnecessária e desmotivada, a realização de um desejo estúpido e, agora eu começava a notar, amargo. Sonhei com uma liberdade que já possuía e era incapaz de notar. Abandonei o carinho, a segurança e a sensatez, mas algo me alertava que o vazio que eles haviam deixado logo seria preenchido por tristeza, amargura e arrependimento, ou qualquer coisa parecida.

Por onde ele iria andar enquanto eu vagasse nas ruas geladas e desconhecidas dessa nova cidade?
Talvez os sorrisos, que antes tinham meu olhos como endereço de entrega, fossem agora doados a outra pessoa. Eu fui embora sem me despedir, ainda que nossas brigas parecessem soletrar um adeus doloroso, não acabei, deixando nosso relacionamento propositalmente mau resolvido. Egoísta, ainda prefiro não imaginar a dor que isso possa estar causando nele neste instante. Sei o quanto dói em mim, e já basta. Sei também que essa era a forma de ter um pedaço seu para sempre, mesmo que este pedaço tenha a forma de uma cicatriz.
Entrando quase em desespero, romantizei por alguns segundos um reencontro em que, depois dessa distância estúpida, haveria ainda mais amor entre nós e também adicionaríamos a tolêrancia a nossa história. Mas logo notei que um reencontro agora só mesmo em alucinações.

Levantei para admirar a vista da janela do velho quarto que havia conseguido e notei que estava tarde demais pra puxar a corda do para-quedas. A queda seria inevitável e marcante, deixando em mim a idéia de que o desejo de aventuras não passa de um disfarce para hipocrisia. Mas era tarde também para recriminações e dramatizações. Se lamentar não mudaria os fatos.
Só me restava aprender a voar.


Vienna - The Fray

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E eu não escrevo melhor...

Quando estou preso no chão Então não me ensine uma lição Pois eu já aprendi Eu não quero o que você quer Eu não sinto o que você sente Veja estou preso numa cidade Mas eu pertenço ao campo Tudo bem E o coração bate em sua gaiola

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