Olhar para um passado remoto parecia fácil agora, depois que tudo havia mudado. Foi a essa conclusão que a morena chegou, sentada na sala ampla, verde, esperando-o chegar.

- Cath! Que surpresa!

A morena levantou, colocando a bolsa de lado, dando um rápido abraço no garoto. Ele riu, comentando o quanto estava feliz por vê-la depois de tanto tempo. Catherine voltou a sentar, apertando o envelope no bolso, vendo-o buscar duas garrafinhas da geladeira.

- Achei que precisávamos conversar, Sam.

Ela relutava contra a vontade de rir abertamente, só por estar ali com ele. Talvez toda essa brincadeira de esconde-esconde finalmente teria acabado. Ele sentou-se na poltrona a sua frente, rindo, bebendo um gole da garrafa.

-Sim. Queria que você fosse a primeira a saber Cathy... Estou namorando.

Os olhos castanhos dele brilhavam, eufóricos, esperando uma reação da garota que se engasgava e procurava aflitamente uma maneira de respirar.

- Ah, nossa. Que bom! Fico muito feliz por você, mas acho melhor eu ir agora.
- Você não quer ficar mais um pouco? Parece que você tinha algo pra dizer...

A morena balançou a cabeça negativamente, sorrindo, fechando a porta atrás de si o mais rápido possível. Ela sabia que precisava de um tempo, mas ainda podia esconder, não é?

Sam observou a fina silhueta da garota se afastando, voltando logo para a sala e notar o pequeno envelope amassado no sofá, onde a pouco Cath se encontrava. Ele leu as primeiras linhas, arregalando os olhos, afundando o rosto nas mãos, amassando o papel.

"Amor não é algo fácil de declarar para você..."






The Strokes - The Way It Is

Um fim nunca é certo. Aquele fim era, além de errado como todos os outros, injusto. Ou pelo menos era o que John pensava no exato instante que foi encontrado por Clair. Sentado no sofá, se deliciava com o susto que sua presença indesejada causara em sua ex namorada. Ela vinha o evitando algumas semanas, telefones desligados, ausência de tempo. Problemas resolvidos por John com a cópia da chave e um pouco de ousadia. Ousadia demais, foi o que ela pareceu pensar quando o mandou sair.

- Boa noite pra você também, meu amor.
- Fora, John.


A porta da rua pela qual ela passara ao entrar permanecia aberta, acompanhando as palavras da loira que ele tanto amava. Clair sempre tivera um gênio forte, mas esperá-la chegar do trabalho sem avisar era apenas uma pequena surpresa, não justificava todo aquele drama. Ela deveria ter tido um dia ruim. Despreocupado, o moreno explicou que eles precisavam conversar. Aquela briga não era o fim, os três meses de afastamento só aumentaram o amor de ambos e já era hora de deixar o orgulho de lado e voltar ao normal. Mas mais uma vez, ela não queria concordar, parecendo até mesmo irritada com o assunto que jurava estar encerrado. O sorriso de descrença nos lábios do moreno pareceu ser a gota d'água.


- Eu não te amo mais, John. Esqueça!


As palavras saltaram da boca da garota como fogo, esquentando a cabeça de seu ouvinte no mesmo instante. Um amor de quatro anos não acaba assim e se ela discordava, teria que provar. Com agilidade, levantou-se do sofá e caminhou até Clair com um olhar quase agressivo.


- Duvido!


As mãos fortes e grandes do moreno a prenderam em um beijo sem saída. Ela tentava gritar, lutando contra um inimigo que a apertava com uma força desleal. Para ele, meros sinais de infantilidade e teimosia. A resistência de Clair despertava nele uma raiva quase incontrolável.
Mas quando finalmente afastou seus lábios dos dela, viu olhos cheios de medo e terror.


Sentiu a porta bater assim que seu corpo passou pelo batente. Caminhou pela rua com os pensamentos em alta velocidade. Percebeu então que o medo que vira nos olhos da loira não era dele, era do amor. Ainda estava fragilizada com o fim, mas logo estaria ao seu lado. E ele voltaria, até que ela admitisse que pertencia a ele.
John podia ver o futuro. Só esqueceu de ver a sinaleira e o caminhão da rua que cruzava enquanto pensava em Clair.

E então nunca mais pode ver nada.




Muse - Supermassive Black Hole

O barulho e a fumaça daquele pequeno bar me entorpeciam juntamente com aquele liquido cristalino que repousava no copo sujo a minha frente. Afinal, o que era aquilo? Não lembrava se era água ou algo que eu preferiria não saber o nome. Olhei em volta novamente constatando a precariedade das pessoas que bebiam e fumavam, tentando a pobre da garçonete, que provavelmente não sabia mais o que estava fazendo ali.

Acho que nem eu mais sabia, ou fingia não saber? Inalei o ar quente pegando a minha mochila do chão, puxando o celular, suspirando ao ver as duas chamadas não atendidas. Não acredito que ele realmente tentou me procurar. Não depois daquela noite. Não depois das coisas que ele me jogou na cabeça. Apenas uma farsa para não ser chamado de despreocupado e irresponsável. Guardei o celular, deixando algumas moedas perto do copo intocado, passando pela porta. O ar frio bateu no meu rosto aliviando o sufoco que eu sentia, me fazendo ver o abismo em que eu me encontrava, procurando por uma corda que me segurasse.

Um abismo de raiva e vingança. Um medo, uma magoa encoberta pelo desejo de magoar as pessoas, uma forma de se proteger, dizendo 'Não sou quem você quer'. Tento entender como posso me sentir assim em relação ao meu próprio pai. As lágrimas ameaçam a cair sempre que me lembro dele ao lado da mulher jovem que ele trouxe para dentro do meu pequeno mundo. Não aprenderia a lidar com a situação e seria difícil conviver com ela, mas não impossível. Estava sozinha desta vez; sem opções. Impossível fingir não ver a traição a minha frente, correr da verdade não me salvaria hoje; só me deixaria mais fraca.

Encarei o abismo e pulei.


3OH!3 - Don't Trust Me

Mais uma vez ele bebeu demais. Mais uma vez eu fui à vítima que aguentou seus lamentos, suas lamurias, e, algo que não acontecia há algum tempo, suas perguntas sobre o quão importante ele é na minha vida. E mais diferente ainda, ele falou da morte. Mais uma vez ele me assustou. Algo que eu gostaria de ter respondido pra ele hoje, mas não tive coragem, é que, antes de todos os erros, antes de tudo de pior que eu me

lembro, ele foi meu herói.

Eu gostaria do fundo do meu coração olhar nos olhos dele e dizer o quanto eu o amo, e o quanto eu preciso dele aqui. Do contrário do que ele pensa, não para bancar minhas idiotices, e sim, para me mostrar o caminho certo. E sim para que eu pudesse ouvir o que eu desejo ouvir desde pequena e nunca tive a oportunidade.

‘Eu te amo, filha. Eu sinto orgulho de ter te criado, de ter sido o teu pai. ’

Não tem como explicar o nó que se formou em minha garganta, pois cada dia que passa eu sinto que tenho deixado de lado as palavras que eu venho lutando desde sempre para dizer. Não só para ele, mas sim para todos que eu tenho medo de enfrentar.

Ninguém sabe, mas eu sinto medo. O tempo todo. E cada palavra que eu o escuto dizer após três copos de Whisky me machucam.

E no fim, eu só não quero mais sentir essa culpa.

Lithium - Evanescence

A música parecia fluir como veneno pelas minhas veias, me dando uma euforia que não saberia explicar depois. Era incrível ver como o ambiente quente e abafado não me afetava, só me excitava ainda mais a prosseguir. Eu me mexia no ritmo da música, extravasando a energia extra, sentia que era o que eu precisava. Eu passava as mãos pelo cabelo lentamente, desfazendo os nós que iam se formando durante os movimentos leves, mas imponentes. Os seus pedidos da noite anterior me faziam rir, mas eu havia cedido a ele e agora me encontrava dançando no meio da sala, deixando as memórias se juntarem a minha euforia, dobrando o calor que sentia. Sentei no carpete felpudo perto do sofá, dando uma leve olhada para a fina aliança prateada na mão direita, enquanto imagens percorriam minha mente rapidamente. Jantar. Brincadeiras. Indícios. Aliança. Namoro? Não, um comprometimento fora do comum. Seu apartamento. Quarto. E finalmente os lençóis vermelhos. As suas mãos geladas no meu corpo quente, fazendo com que eu me arrepiasse. Não existia nada mais para mim, a não sei os seus toques que me levavam a loucura, o seu cheiro apimentando se mesclando com o meu... A batida da porta me arrancou dos devaneios, desviando meus olhos da aliança, pousando-os em você, parado na minha frente com aquele sorriso safado que me fazia aceitar os pedidos mais insanos. Levantei e em poucos segundos já estava na sua frente, deixando a insanidade se completar;
A minha dança não seria a mesma coisa sem você. Tudo que mais gosto seria impossível viver sem você, ou de que outra maneira sentiria novamente tudo aquilo que você me proporcionou naqueles lençóis vermelhos? Todo aquele prazer insano que me deixava louca por mais, como um vicio que jamais poderia largar... O vicio pelo errado que me atraia e me segurava e por isso estava aqui. No lugar errado, com o propósito errado e a pessoa certa para coisas erradas!

Crash, crash, crash. O barulho feito pelas folhas caídas daquele outono anormalmente gelado pareciam gritos de protesto. Elas atrapalhavam o caminho de meus pés e minhas malas, preenchidas com uma insegurança pesada. Eram como ancoras que eu insistia em arrastar.

- Oi mãe... eu só quero dizer que, hm, que eu estou bem. Fique bem também, ta bom? Ligo quando puder.

Coloquei o telefone no gancho e as mãos na cabeça. Minha fuga não tinha justificativas, era desnecessária e desmotivada, a realização de um desejo estúpido e, agora eu começava a notar, amargo. Sonhei com uma liberdade que já possuía e era incapaz de notar. Abandonei o carinho, a segurança e a sensatez, mas algo me alertava que o vazio que eles haviam deixado logo seria preenchido por tristeza, amargura e arrependimento, ou qualquer coisa parecida.

Por onde ele iria andar enquanto eu vagasse nas ruas geladas e desconhecidas dessa nova cidade?
Talvez os sorrisos, que antes tinham meu olhos como endereço de entrega, fossem agora doados a outra pessoa. Eu fui embora sem me despedir, ainda que nossas brigas parecessem soletrar um adeus doloroso, não acabei, deixando nosso relacionamento propositalmente mau resolvido. Egoísta, ainda prefiro não imaginar a dor que isso possa estar causando nele neste instante. Sei o quanto dói em mim, e já basta. Sei também que essa era a forma de ter um pedaço seu para sempre, mesmo que este pedaço tenha a forma de uma cicatriz.
Entrando quase em desespero, romantizei por alguns segundos um reencontro em que, depois dessa distância estúpida, haveria ainda mais amor entre nós e também adicionaríamos a tolêrancia a nossa história. Mas logo notei que um reencontro agora só mesmo em alucinações.

Levantei para admirar a vista da janela do velho quarto que havia conseguido e notei que estava tarde demais pra puxar a corda do para-quedas. A queda seria inevitável e marcante, deixando em mim a idéia de que o desejo de aventuras não passa de um disfarce para hipocrisia. Mas era tarde também para recriminações e dramatizações. Se lamentar não mudaria os fatos.
Só me restava aprender a voar.


Vienna - The Fray

About this blog

E eu não escrevo melhor...

Quando estou preso no chão Então não me ensine uma lição Pois eu já aprendi Eu não quero o que você quer Eu não sinto o que você sente Veja estou preso numa cidade Mas eu pertenço ao campo Tudo bem E o coração bate em sua gaiola

Seguidores